Arte marcial: Arte, religião, esporte?

A sociedade moderna importa ingenuamente práticas de todos os tipos sem conhecer origens e história, sem avaliar as reverências prestadas por atos ou por subserviência a mandamentos.


Ano 4 – Revista nº 8 – Março 2013

UM POUCO DE HISTÓRIA 

Há controvérsias entre historiadores e pesquisadores quanto à origem do que chamamos, hoje, de artes marciais. Não há registros escritos que permitam precisar suas origens. Apenas indícios de uma ou outra cultura.
 
Recentes descobertas arqueológicas mostram guardas pessoais na Mesopotâmia praticando técnicas de defesa e de imobilização de agressores.
 
Na realidade sua origem confunde-se com o desenvolvimento da civilização, quando, logo após a onda tecnológica agrícola, alguns começam a acumular riqueza e poder e com isso, o surgimento de cobiça, inveja e seu corolário, a agressão.
 
Atualmente, pessoas de todo o mundo estudam artes marciais por diferentes motivos: como condicionamento físico, defesa pessoal, coordenação física, lazer, desenvolvimento de disciplina, participação em um grupo social e estruturação de uma personalidade sadia, visto que a prática possibilita o extravasamento da tensão que harmoniza o indivíduo, focalizando-o positivamente.
 
No sistema, o enfoque na respiração proporciona benefícios físicos e psicológicos, como diminuição do cansaço, potencialização dos movimentos, aumento da autoconsciência e tranquilização.
 
A versão mais conhecida da arte marcial tem como foco principal Bodhidharma – monge indiano que, em viagem à China, orientou os monges chineses na prática do yoga e rudimentos da arte marcial indiana, o que caracterizou posteriormente na criação de um estilo próprio pelos monges de shaolin. É sabido, historicamente, através da tradição oral e escavações arqueológicas, que o kung fu já existia na China há mais de 5.000 anos. Da China, estes conhecimentos se expandiram por quase toda a Ásia.
 
Japão e Coreia também têm tradição milenar em artes marciais. No Japão, destaca-se o judô, o caratê e seus estilos, tais como shotokan, bushi ryu, shito-ryu, shorin-ryu, o jiu-jítsu, o quendô, o aiquidô etc.
 
DEFININDO PARA DECIDIR 
 

Arte: As Artes Marciais são sistemas codificados de estilos de luta ou treinamento, em combates armados ou não, sem o uso de armas modernas, como as de fogo; envolve filosofia, concentração e disciplina; está relacionada à cultura de um povo. Contrariando a crença popular, as artes marciais não são um fenômeno estritamente asiático e ocorrem em quase todas as culturas, em todas as classes sociais e ao longo de todos os períodos históricos. O termo em inglês “martial arts” foi traduzido do japonês “bu gei” or “bujutsu”, ou do chinês “wu shu”, que significam “a arte da guerra”.

As Artes Marciais não deixam de trabalhar também com conceitos de Defesa Pessoal, mas pelo fato de a grande maioria ser bastante antiga, a defesa pessoal chega a ser um pouco obsoleta. Uma Arte Marcial pode inclusive não ser utilizada esportivamente por focar em técnicas mortais com uso de lâminas, golpes nos olhos, testículos, quebramentos. Caracterizadas pelo zelo com o condicionamento físico, e pelo treinamento “virtual” (combate simulado sozinho) denominado formas, katás, etc. Ex: Kung Fu, Karatê, Judô, Taekwondo.
 
Esportes de Combate: Podem ou não ser artes marciais com objetivo de pontuação para lutas esportivas com regras para preservar a vida e a integridade dos praticantes. A maior parte dos Esportes de Combate é originada do ocidente (Grécia, Roma, etc), e não se utilizam de nenhuma “arma branca” (exceção ao esporte olímpico da esgrima!). Existe também o treinamento “virtual”, denominado “Sombra”. Não trabalha necessariamente os conceitos de “defesa pessoal” (desarmamento, trabalho com faca, etc.), todavia têm demonstrado ser uma modalidade mais eficiente quando da sua requisição enquanto tal devido ao dinamismo e simplicidade de seus conceitos e golpes. Ex: Muay Thai, Luta Greco-Romana (Luta Livre), Boxe, entre outras. Com exceção do Muay Thai (que é um intermediário entre Arte Marcial e Esporte de Combate), não existem hierarquias de aprendizagem (faixas).

Religião: Segundo se observa pelas citações anteriores, as artes marciais não apenas envolvem o corpo do indivíduo, mas, sobretudo uma doutrina filosófica, seu espírito e sua mente. Em material exposto na mídia o Instituto Bodhidharma declara que a doutrina filosófica das artes marciais tradicionais envolve: (…) quatro aspectos que são:

Mágico, Estratégico, Tático e Técnico. O desenvolvimento da Doutrina Filosófica é em função dos 5 elementos que são: Terra, Água, Ar, Fogo e Éter. As ferramentas de trabalho da Doutrina são as 5 faculdades: Memória, Imaginação, Atenção, Discernimento e Consciência.
 
Os valores Filosóficos da Doutrina são os 7 Princípios: Centro, Distância, Tempo, Regulação, Ritmo, Absorção e Controle. É através desses 4 pontos que a Filosofia Marcial se estrutura e desenvolve com uma identidade própria e um caminho próprio.
 
Observe no destaque, as frases dos mestres de artes marciais sua prática não envolve nem objetiva o desporto em si mesma, mas, a auto-realização e a obtenção de controle e poder tanto psíquico quanto espiritual independentemente de Deus.
 
Se essas práticas, seja como arte ou como esporte, utilizam técnicas para buscar a auto realização e a obtenção do poder psíquico e espiritual independentemente de Deus, seus criadores e ou praticantes reverenciavam alguma força ou poder não divino. Se essa força ou poder não é divino, então o que é? 
Na prática das “Artes Marciais” há o desencadear de reações de agressividade e violência, haja visto o espírito de luta que nelas opera alterando as condições de consciência e equilíbrio da alma. Shigeru Sogo (mestre de Karatê Shotokan) afirma que “o sucesso num combate é fruto 10% de técnica e 90% de ‘alma’. No caso de lutadores muito bons, pode ser 20% de técnica e 80% de “alma”. 
Em casos de pessoas com histórico familiar de agressividade e violência é puro engano achar que a prática de artes marciais irá apaziguar o ânimo interior do indivíduo e fazê-lo pacífico.
 
E A CAPOEIRA? 

No Brasil, apesar da vinda de imigrantes das mais variadas partes do mundo que trouxeram em sua bagagem a prática das artes marciais, desenvolveu-se a capoeira, citada hoje como a “arte marcial brasileira”. Sobre ela, Rondinelli escreve: 

O termo capoeira significa “o mato que nasce depois do desmatamento”, provavelmente porque era praticada entre esses matos, com os lutadores próximos ao chão, para não serem descobertos pelos seus senhores. É preciso dizer que nessa época a capoeira era uma prática proibida, pois com os escravos treinando sua forma de defesa pessoal, poderiam trazer problemas para aqueles que se consideravam seus “donos”. No entanto, ainda que proibida, a capoeira nunca deixou de ser praticada e ensinada. (…) Outra característica importante da capoeira é a música. A música é sempre tocada por membros da roda que se revezam, e é acompanhada de uma regra fundamental: os membros da roda sempre precisam responder ao canto, também chamado de ladainha. As ladainhas são acompanhadas pelo toque de alguns instrumentos: pandeiro, atabaque, caxixi, agogô e reco-reco. 

Talvez, o mais interessante das ladainhas sejam as suas letras que remetem ao cotidiano dos escravos, ao momento da roda de capoeira, aos deuses do candomblé (religião de origem africana) e do catolicismo, e à relação entre homem e mulher. 

A sociedade moderna importa ingenuamente práticas de todos os tipos sem conhecer origens e história, sem avaliar se as reverências prestadas por atos ou por subserviência a mandamentos, se os gritos e golpes, se as práticas de meditação realmente podem gerar benefícios.

Nossos filhos são conduzidos a essas práticas por acharmos que a atividade física gera inegáveis benefícios enquanto na esfera física, mas e no campo psicológico e espiritual teremos os mesmos benefícios? 

Em todas as informações apresentadas, elaboradas por adeptos de artes marciais, entre eles professores e entidades que as ensinam e não por teólogos ou pesquisadores que lhes sustentem antipatia, percebemos uma forte influência mística. 

Uma vez que as artes marciais não se revestem da característica de um esporte diante das evidências filosóficas, mais consistente será considerá-la uma religião. 

Desde a regulamentação do exercício profissional da educação física pela Lei 9.696/1998, tem havido grande número de ações judiciais impetradas pelo Conselho Federal de Educação Física (CONFEF) com o propósito de obrigar as academias, clubes e institutos de artes marciais e seus afins a se legalizarem, mediante a admissão em seu quadro funcional de um professor legalmente habilitado. A polêmica aumentou com a apresentação do Projeto de Lei 7.370/2002 que isentou tais instituições da fiscalização pelos Conselhos Regionais de Educação Física, sob a alegação de que as artes marciais não são atividades físicas, nem desportivas, tratando-se de práticas artísticas e culturais (CONFEF, 2005, p. 21). 
Por outro lado, parafraseando o escritor bíblico Paulo, poderíamos afirmar que “nem tudo que não é proibido nos convém fazer” (I Coríntios 10:23). Cumpre-nos saber se a prática de artes marciais é algo que edifica, aperfeiçoa o individuo em sua relação com o Criador, seus semelhantes e consigo mesmo, ou se apenas tem tal aparência, produzindo ao longo do tempo efeitos indesejáveis. 

«O objetivo fundamental da arte do Karate não consiste na vitória ou na derrota, mas no aperfeiçoamento do caráter de seus praticantes.»
Gichin Funakoshi
 
«O Dojo* é o campo de batalha da vida, um “campo de vida e de morte”. A única diferença que existe entre ele e o campo de batalha de uma guerra é que no Dojo quem está sendo treinado pode morrer muitas vezes seguidas e ficar vivo para contabilizar essas mortes como experiências que favorecem o seu desenvolvimento nos caminhos e, eventualmente, capacitam-no a transcender a vida e a morte.»
Jackson Morisawa (Mestre Zen)
 
 
 «Assim como com uma vela acesa se acende outra, o mestre transmite o genuíno espírito da arte de coração a coração, para que eles se iluminem. Então, se a graça lhe é reservada, o discípulo descobre em si mesmo que a obra interior que ele deve realizar é bem mais importante que as obras exteriores, por mais atraentes que sejam, e que ele deve persegui-la se quiser ser o artífice do seu destino de artista.»
Eugen Herrigel (Mestre Zen)
 
 
 «O Karate-Do Tradicional é muito mais que um esporte de combate competitivo, pois o espírito que o norteia não é apenas a busca de vitórias em competições, mas, acima de tudo, a auto-superação. Seu praticante visa vencer a si mesmo e as suas imperfeições. Neste sentido, não há vitória exterior sem vitória interior.»
Yasutaka Tanaka

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