Preconceito literário

Muitos jovens se contorcem ao lhe ser solicitada a leitura de um livro. Mas de onde vem esse preconceito e como combatê-lo?

Notícias – 25 de fevereiro de 2015

Por: Daniela Antoniazzi é preparadora e revisora de textos; formada em Letras inglês/português pela FFCLCH USP e especialista em tradução.

LeituraMuitos jovens se contorcem ao lhe ser solicitada a leitura de um livro.

Nos anos em que lecionava, convivi, por exemplo, com o preconceito existente contra Machado de Assis e outros gênios de nossa literatura. Isso mesmo: sem conhecê-lo e por lenda que vem sendo transmitida há algumas décadas, muitos adolescentes e jovens fogem de literatura com o mesmo empenho com que o “Cão foge da cruz”!

Certa vez, ao entrar em uma sala de aula, do segundo ano do Ensino Médio, um aluno interveio: “Professora, você não nos pedirá para ler Machado de Assis, né?” Minha resposta foi negativa, mas justificada: infelizmente ele não estava no programa! Deveríamos ler, naquele momento, Lima Barreto e Monteiro Lobato.

Ao concluir a frase o aluno me respondeu: “Que bom! Porque eu odeio Machado de Assis, e todo professor de português afirma que temos de ler e gostar de suas obras!”.

Como aluna e professora crítica que sempre fui, tomei a liberdade de perguntar ao aluno o que ele já havia lido do Machado de Assis e, ele respondeu: “Nada!”. É isso mesmo, Machado de Assis, um dos maiores escritores brasileiros, se não o maior, estava sofrendo preconceito! Estava sendo julgado, sem direito de defesa, sem fatos!

Novamente, como sou muito crítica e respeito a criticidade nas pessoas, inclusive em meus alunos, desafiei-o: “Qual autor você gosta?”. A resposta não poderia ser mais dolorida: “Paulo Coelho”. Era isso, as duas maiores vítimas de preconceito da história da literatura brasileira precisavam se desafiar. Mantendo minha veia crítica e abrindo uma exceção para emprestar um livro meu, desafiei: “Fazemos o seguinte: você lê um livro do Machado de Assis e eu leio um do Paulo Coelho, no final você me diz por que não gostou do Machado de Assis e eu lhe explico porque gostei ou não do Paulo Coelho”.

A verdade é que eu já tinha lido Paulo Coelho em minha adolescência e não havia curtido! Mas, pacto é pacto. Li o tal Diário de um mago e ele leu Memórias póstumas de Brás Cubas. Ao final do mês, finalmente o aluno adentra a sala com uma declaração: “Professora, você leu meu livro?” Respondi que sim. Então ele continuou: “Professora, terminei minha leitura e adorei! Como ele é irônico, ele é maravilhoso! Professora, preciso ler mais!” Então, fui lhe explicar o porquê de eu não gostar de Paulo Coelho. Expus também que reconhecer as qualidades de uma grande obra não significa gostar dela e que eu, por exemplo, não gosto de Clarice Lispector, embora reconheça as qualidades de sua escrita e sua importância na história da literatura brasileira.

Em outro momento, em outra escola, ao utilizar trechos de Dom Casmurro para mostrar a riqueza de sua escrita, resumi rapidamente a história e muitos se interessaram, não só porque se tratava da famosa história de Capitu e Bentinho, mas principalmente, porque ficaram maravilhados com seu estilo. Uma colega lhes disse logo em seguida que não deveriam lê-lo, pois não era para idade deles. A aluna questionou-me o porquê de indicar uma “obra pornográfica”!

Fui surpreendida muitas vezes com os resmungos ao pedir uma leitura e mais ainda com o entusiasmo dos jovens após fazê-la. Aos poucos, descobri então que muitos dos mitos e preconceitos dos alunos sobre literatura são alimentados por seus próprios professores que ignoram o prazer de ler ou o fazem muitas vezes por pura obrigação.

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